Missão do Bibliotecário, por José Ortega y Gasset

José Ortega y Gasset (Madrid, 9 de maio de 1883 — Madrid, 18 de outubro de 1955) foi um intelectual, filósofo espanhol. Também atuou como ativista político e como jornalista. Voltado principalmente para aspirantes da área de biblioteconomia, o texto Missão do Bibliotecário discorre um pouco sobre o contexto histórico e a natureza da profissão: como ela se deu, quando teve seu início e como foi então a sua evolução. Ortega y Gasset por ser filósofo, tem uma perspectiva um tanto quanto existencialista acerca da profissão de bibliotecário, mas o autor não chega a ser um idealista, delineando apenas os caminhos para qual seus argumentos evoluem.

Encarando a profissão estritamente como uma “Missão Pessoal” o autor elucida pensamentos que, em primeira instância, ao leitor leigo, parecem muito óbvios tais como “Missão significa, antes de tudo, aquilo que um homem deve fazer em sua vida” (2006, p. 3). O leitor que não estiver a par de um contexto de uma linha filosófica mais existencialista, imaginará que o autor e seus argumentos são um tanto quanto ingênuos. Porém isso não se aplica quando o autor fala da nessecidade humana acerca da profissão pois “este chamado que ouvimos rumo a um tipo de vida, esta voz ou grito imperativo que se eleva de nosso íntimo mais radical, é a vocação” (2006, p. 6).

De qualquer forma o autor faz uma crítica não a profissão bibliotecária em si, mas ao que ela fez de si mesma, o que se tornou. No tópico “Missão Profissional” o autor reitera que na atualidade em que vivia (o que não difere muito dos dias de hoje), não se fazia mais biblioteconomia por vocação, mas pelo simples fato de exercer uma função e ter um trabalho. O intelectualismo não estava mais atrelado à profissão. Nos dias de hoje é possível enxergarmos que o que impera é a impessoalidade ao tratarmos da biblioteconomia de uma maneira um tanto quanto asséptica, preocupando-se mais com dados e técnicas do que com o lado humano ou social, enxergando o ofício puramente como uma carreira. Ortega y Gasset defende o que hoje é evidente: são raros os apaixonados pela profissão, que a fazem por convicção e vocação.

(…) o homem faz aquilo que ele e somente ele deve fazer, com total liberdade e sob sua exclusiva responsabilidade. Por outro lado, esse mesmo homem, ao exercer uma profissão, compromete-se a fazer o que a sociedade necessita. (p.13)

Remontando a história da profissão do século XV ao século XIX, o autor indica que foi apenas no início do Renascimento que a figura do bibliotecário começou a delinear-se na esféra pública (p. 18). Já no século XIX, a carência de livros que existiu nos séculos anteriores havia sido suprida, existia uma maior freqüência de publicação e a impressão tornou-se mais barata, o que fez por sua vez surgir a necessidade da catalogação (p. 21). Embora os avanços tenham sido evidentes, a profissão ainda era considerada social e espontânea, pois o Estado ainda não a tornara oficial (p. 22). “O incidente mais importante – certamente pensareis comigo – que pode acontecer a uma profissão é passar de ocupação espontaneamente fomentada pela sociedade a burocracida do Estado” (p. 23).

Em “O livro como conflito” Ortega y Gasset faz três colocações que ainda na atualidade são temas de debate e controvérsia. Suas colocações, explanando grosseiramente, são as de que 1. Existem livros demais – há informação demais; 2. Existe também uma super-produção de livros de “conteúdo irrelevante”; 3. Propõe a figura do bibliotecário como filtro de conteúdo. É possível perceber que o autor mantém seu foco muito no objeto livro e não no livro enquanto portador de informação. No entanto não é difícil imaginar e visualizar o discurso do autor ainda sendo debatido nos dias de hoje. A nova missão da profissão de bibliotecário, ao mesmo tempo que deveria ser uma continuidade das habilidades já existentes, precisa de um novo recomeço, uma reconfiguração.

A proposta de Ortega y Gasset acerca do biblitecário como “filtro de conteúdo” do meio científico já é uma realidade quando observamos os profissionais que decidem por especializar-se em uma área específica como a de leis ou de saúde. Em todo o caso, não é possível convir que a figura do bibliotecário possa limitar-se a ser um “especialista em generalidades”, pois esse tipo de profissão não nos permitiria a credibilidade e muito menos daria autoridade alguma no sentido de censurar a informação de qualquer forma. O autor finaliza fazendo uma crítica não à profissão em si, mas ao anti-conhecimento e aos maus profissionais de uma forma um tanto quanto generalizada, condenando também a arrogância intelectual quando diz que “infinitas vezes damos como ‘certo e sabido’ o que é essencial, o substantivo. Essa é uma das mais graves doenças do pensamento” (p. 47).

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ORTEGA Y GASSET, José. Missão do Bibliotecário. Tradução e pósfacio de Antonio Agenor Briquet de Lemos. Brasília: Briquet de Lemos/Livros, 2006. 82 p.

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