Entrevista com Pierre Lévy, no Roda Viva

2009 Maio 24

Hoje, cada vez mais, a sociabilidade vai passar por esses laços sociais, cuja base não é mais de alçada territorial, mas que cada vez mais são da alçada dos processos de inteligência coletiva, processos de intercâmbio de conhecimento, processos de imaginação coletiva. Certo? E cada um poderá participar dessas comunidades virtuais de acordo com seus gostos, paixões e interesses. Podemos até dizer que as empresas, cuja organização é feita, hoje, através de redes de comunicação, estão se tornando comunidades virtuais. As universidades estão se tornando comunidades virtuais. E, no fundo, os grupos humanos, no futuro, vão se organizar sob a forma de inteligência coletiva e, cada vez menos, sob um padrão formal e hierárquico. Construiremos a sociedade com o aprendizado cooperativo muito mais que com as relações de poder ou a exploração mútua. E o faremos porque essa forma de organização irá nos proporcionar mais poder e felicidade.

A verdadeira interatividade não é absolutamente um conceito técnico. É, no fundo, a conversação, a mais aberta e livre possível, entre seres humanos, não é? E acho que hoje temos tecnologias que permitem a abertura dessa conversação. Permitem que essa conversação ultrapasse as fronteiras dos países, as fronteiras das disciplinas e as das instituições. E permitem que pessoas que têm algo a dizer possam entrar em contato, possam se comunicar entre si e aprender. Eu não acho que devemos, digamos, perder muito tempo analisando conceitos técnicos. Porque a técnica evolui muito rapidamente. Se criarmos um conceito de universidade virtual baseado em um conceito técnico evoluído num dado momento, em três ou cinco anos isso já será ultrapassado. Portanto, devemos nos concentrar no essencial. E o essencial é a liberdade [risos]. [...] Não devemos limitar os processos de aprendizado à categorias estáticas, à programas de estudo pré-moldados, mas deixar o aprendizado desenvolver-se como um processo natural e orgânico. E permitir que as pessoas expressem tudo o que sabem e tudo o que aprenderam. [...] As coisas devem se desenvolver da forma mais livre possível.

A liberdade é muito angustiante. Eu entendo a sua angústia. Mas é imprescindível aprender a conviver com isso. No livro intitulado Cibercultura, eu digo, diante dos dilúvios de informações que nos assolam, podemos ser tentados a dizer: “Vamos tentar salvar o essencial”, como Noé, que colocou os animais, um exemplar de cada espécie, na arca. No fundo, na arca de Noé, havia um resumo do conjunto de animais que ia desaparecer. E uso essa imagem no livro para dizer que, hoje, é impossível fazer um resumo do todo. Não podemos mais abraçar o todo, porque ele tornou-se uma coisa infinita. Mesmo que em um momento pudéssemos cercá-lo, logo em seguida, seria diferente. Portanto, todo esse trabalho teria sido vão. Então, digo que cada um, cada indivíduo, cada grupo deve, por conta própria, fazer necessariamente uma filtragem, uma organização, uma seleção, uma hierarquização. Não digo que acabou, não precisamos de hierarquia, de seleção, nem filtragem. É absolutamente necessário. Sem isso, seria impossível dar um sentido a essas informações. E o sentido são informações organizadas de forma a desenhar uma figura, a contar uma história, não é? Com a totalidade de informações brutas não há história, figura, nem sentido. Mas devemos ter consciência de nossa responsabilidade quanto à fabricação do sentido. Não cabe mais à mídia, não cabe à televisão, nem à imprensa, não cabe à universidade, nem ao partido ou ao Estado. Não cabe mais ao Senhor dizer qual o significado das coisas. Cabe a nós assumir a responsabilidade, fazer uma escolha e dizer: “É isto que nos interessa.” É o rumo que queremos tomar. [...] Então, a internet é a descoberta dessa liberdade, porque a liberdade é o infinito, não é? É a descoberta da liberdade do ponto de vista social. Por isso, acho que é algo por demais importante. E não apenas um novo meio de vender coisas on-line. É muito mais que isso.

Então, pessoalmente, acho que a direção mais promissora é a direção da comunidade virtual, como eu disse há pouco. Quer dizer que uma empresa de comunicação que não se contente em distribuir informações, mas que faça participar as pessoas atraídas pelo que ela oferece, tem um processo de inteligência coletiva, real e frutífero, será certamente mais cotada que aquela que só reproduz o velho esquema de emissão de informação para um grande número. As pessoas não têm apenas sede de informação, mas de conversação, de comunicação real, de intercâmbio. E têm também a necessidade de pertencer a uma comunidade.

Quando eu era jovem, meu pai vivia dizendo: “Pare de ler o tempo todo. Chega. Vá lá fora brincar com seus amigos.” Ele podia pensar que minha relação se limitava a folha de papel e tinta. Mas a minha relação não era essa. Eu me relacionava com Émile Zola, Victor Hugo, Cosette, Jean Valjean, com todo um mundo imaginário, não é? E acho que, hoje, as pessoas que navegam pela internet não estão diante do computador. Elas brincam com outras pessoas. Navegam pelo pensamento e pelo mundo das idéias. Não podemos olhar só o lado material, mas temos de entender o que acontece dentro das pessoas. Os espaços interiores, onde as pessoas navegam, são cada vez mais amplos. Acho isso positivo. Por outro lado, como eu disse, não acho que os contatos concretos, físicos entre as pessoas estejam diminuindo. Pelo contrário. Veja, por exemplo, a moda dos colóquios. Nunca houve tantos colóquios como hoje. Tantos simpósios, mesas redondas, tantas jornadas de discussão, de encontros. Isso não existia há um ou dois séculos. As pessoas têm muita vontade de se encontrar e o fazem, mas de todas as formas possíveis, virtuais e reais.

Nize Pellanda: O amor, [Lévy suspira e os entrevistadores riem] banido da ciência clássica, como atrapalhador do conhecimento, volta na sua obra, e também na de outros cientistas complexos, como categoria cognitiva fundamental. O que você poderia dizer sobre isso?

Pierre Lévy: Nize, agradeço muito por me fazer essa pergunta [risos]. Mais uma vez, temos de recorrer à experiência pessoal. É impossível compreender realmente alguém, um ser humano que está à nossa frente, sem amá-lo. Quando amamos alguém, tentamos nos colocar em seu lugar, entender seu interior, aproximamos nosso coração do coração dele e o entendemos. Há uma profunda relação entre conhecimento e amor. Entre duas pessoas, é evidente. Mas, mesmo em termos científicos, quando vemos a forma pela qual os entomologistas estudam formigas ou abelhas, se eles não as amassem, será que poderiam passar anos e anos estudando-as? Quando queremos conhecer uma coisa é porque a amamos. A relação entre conhecimento e amor é muito profunda. [...] O que é aprender? É abandonar velhos reflexos, abandonar os preconceitos e penetrar em um conhecimento diferente. E isso é doloroso. É aceitar se transformar, aceitar ir em direção à alteridade. Aprender é isso. Pensar é isso. Ir em direção de outra coisa. É transformar-se, não é? Porque ser, pensar, aprender, tornar-se é a mesma coisa, não é? Somos o que sabemos, o que experimentamos. Nós nos tornamos o que aprendemos. É o movimento de ir em direção ao outro, à alteridade. O que é o amor? É ir em direção ao outro. É aproximar-se do outro, sair de si mesmo. Se quisermos ser, estando realmente vivos, temos de sair de nós mesmos ou acolher o mundo em nós, acolher o outro em nós. O amor é a mesma coisa. É ir em direção ao outro ou acolher o outro em si, tornar-se o outro. Para mim, não somente há uma identificação entre conhecimento e amor, mas, também, a identificação entre o conhecimento, o amor e a existência, a mais intensa e viva.

Grifos meus. Fonte: Memória Roda Viva.

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