E a quantas anda o Dumont-Adams, hein?

por Rafael Netto @ Terra Fotolog

Acho que uma das primeiras vezes que eu fui a São Paulo, eu deveria ter entre 16-19 anos. Nada me impressionou tanto na avenida Paulista quanto este prédio ao lado do Museu de Arte de São Paulo  Assis Chateaubriand (MASP), o Edifício abandonado Dumont-Adams, que sempre achei um tanto quanto obscuro e ao mesmo tempo muito fascinante, pois mesmo achando a fachada decadente (e talvez por causa disso) eu não conseguia parar de olhá-la e ficava tentando imaginar a época dourada daquele lugar, anos 30 e 40 e em como será que as pessoas viviam ali..

No meio de tantos prédios modernos da Paulista parece que ali sobrevivia aquela pérola única de Art Decó, imponente apesar de todo o abandono e descaso. Meio que sem querer, criei um laço afetivo com o prédio, mesmo sem nunca ter morado na cidade. Aquele “prédio do lado do MASP” era o mais fácil de lembrar, sempre que eu me lembrava das minhas visitas à São Paulo.

Início do ano passado li estas reportagens na Folha Online <Masp reforma prédio abandonado para criar anexo orçado em R$ 15 milhões> e <Arquitetos criticam projeto do Masp Vivo>,  fiquei sabendo que o prédio seria restaurado e fiquei feliz. Não imaginava que existia um processo rolando desde 2005 para que esse restauro/reforma efetivamente começasse a acontecer. Depois disso, não pensei mais  sobre o assunto, esqueci mesmo. Mas há alguns dias que lembrei-me de novo e imaginei como o prédio já poderia estar. Hoje resolvi buscar mais informações pela Internet, mas não achei nada que fosse muito recente.

por Douglas Nascimento @ Flickr

Encontrei o site São Paulo Antiga, que é muito bom, mas não tem informações recentes sobre o que róla com o prédio. Também não foi difícil encontrar um site com fotos do interior do edifício Dumont-Adams, que parece que é de autoria do /giltokio @Flickr.

No site VitruVius, na seção Minha Cidade, encontrei um post intitulado A Torre do MASP na Avenida Paulista, onde foi colocado na íntegra o segundo parecer da Conpresp em resposta ao recurso da direção do Masp, assinado pela arquiteta Mônica Junqueira Camargo, que não apóia a idéia da construção de uma torre ao lado do prédio, por que segundo ela isso interferiria e desvalorizaria o entorno da obra arquitetônica do Masp:

“(…) Considerando o acima exposto, importante reforçar que o Masp, como já explicado anteriormente, qualificou o seu entorno, estabelecendo com ele uma forte relação. A proposta de mudança imponente, como esta aqui apresentada, acarretará um desequilíbrio na paisagem que conforma e complementa o edifício. O Masp é uma das soluções arquitetônicas mais generosas para com a cidade e seus habitantes. (…)”

No mesmo site há outro texto muito sensível da arquiteta Ruth Verde Zein, defendendo a obra arquitetônica do Masp. A autora fez um resgate histórico sobre como se deu a primeira exposição do museu, relembrando que as obras eras dispostas de modo a ensinar  didaticamente as pessoas a verem, enxergarem de fato, a exposição como um todo. “Ver com o coração e a pele antes de ver com a lembrança do já visto ou com a secura intelectual do já sabido. Ver com plenitude, e não apenas consumir” ela disse. Em seguida fiz um recorte que achei importante, onde a autora faz uma reflexão do embate entre a preservação e a renovação para a modernização:

por Hélio Bertolucci Jr. ©

“Como qualquer museu, o MASP precisou mudar e se adaptar aos novos tempos. Nem cabe questionar se devia fazê-lo pois trata-se, certamente, de uma imposição inelutável: mudar ou morrer. Não é uma exceção: muitos edifícios das nossas cidades perdem seu uso original ou têm seu uso tão transformado que, de uma maneira ou de outra, precisarão sofrer acréscimos, alterações, modificações. Preservar o patrimônio é, também, dar-lhe um uso ativo, pois nada destrói mais um bem do que seu abandono. Seria um engano de graves conseqüências persistir em manter formas e usos ultrapassados ou impedir que elas sejam corretamente adaptadas ou atualizadas para novos usos.

Mas pode ser também um erro de graves conseqüências a tolerância fácil a toda e qualquer mudança: nem tudo o que é novo, por ser novo, é necessariamente bom. Quando se lida com um patrimônio não se deve temê-lo demais, a ponto de não poder encostar-lhe o dedo; mas não se deve desrespeitá-lo, e meter a mão sem cuidado, sem critério, sem intenções claras e, sobretudo, sem sabedoria. É a busca de equilíbrio sobre uma navalha de fio muito afiado, e dificilmente deixa de ser polêmica toda e qualquer intervenção sobre um bem patrimonial edificado. E quando se trata de uma obra do valor e da importância, brasileira e internacional, de um edifício como o do MASP, a situação ficará sempre, de qualquer maneira, crítica.”

Depois destas leituras, descobri então que Lina Bo Bardi foi a arquiteta do MASP e não do Dumont-Adams, como eu achava antes. Pois bem. Existem 2 artigos muito interessantes sobre esta arquiteta italiana “Lina Bo Bardi: tempo, história e restauro” e “A modernidade museográfica de Lina Bo Bardi”. No site da Wikipédia está dito que o arquiteto do Dumont-Adams foi Le Corbusier, mas eu também não tenho como confirmar isso… E também não achei nada na Internet que confirmasse isso. Vai ver procurei mal :S

Fachada do Dumont-Adams por Marcelo K @Flickr

Fora estas notícias, achei também um fórum de arquitetura internacional chamado Skycrapercity.com, com um tópico iniciado em fevereiro de 2006, especificamente sobre o edifício Dumont-Adams. O tópico foi iniciado por um cara chamado Jorge, que parecia fazer parte da Associação Preserva SP. Li o tópico na íntegra pra ver se encontrava mais informações e até encontrei algumas a mais, mas o foco ali no forum era diferente: falavam pouco da Torre a ser construida e mais da questão de preservação estética do Dumont-Adams mesmo. Bem.

Cronologia das notícias, até então:

Pelo que vi nessa pesquisa rápida que fiz hoje existem (existiram?) dois tipos de discussão: a) Os pareceres das duas arquitetas sendo contra a instalação da torre no Dumont-Adams, pois isso interferiria no entorno e prejudicaria a harmoniosidade do projeto arquitetônico do Masp; b) O pessoal se organizando num fórum de discussão, contra uma possível descaracterização estética do Dumont-Adams. Depois disso não consegui encontrar mais notícias que sejam recentes, do segundo semestre de 2010 ou de 2011. Mas vou ficar de olho pra ver como as coisas acontecem.

por Edu Machado @ Flickr

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9 respostas para E a quantas anda o Dumont-Adams, hein?

  1. José Paulo disse:

    Lembro também desse prédio. É interessante o fato de que ao lado de um museu tão importante exista um edifício em ruínas, apesar de sua arquitetura ser tão marcante para quem o observa.

    Li “por cima” o seu post e talvez por isso ainda não sei se o prédio pertence ao governo, prefeitura ou se é propriedade privada. Os milionários de São Paulo não gostariam de morar ao lado do MASP?

    • Dora disse:

      Zé,

      Me parece que o Dumont-Adams agora é de propriedade Masp/Vivo. E tb acho que esqueci de mencionar no post que o prédio está sendo reformado pra ser um anexo do próprio Masp, a parte administrativa vai toda pra lá. Além disso, também estão querendo oferecer cursos de pós-graduação em museologia, história da arte e restauração.

      Parece que o prédio vai chegar aos 70 metros, pois no terraço terá um café da Nestlé (parece que não irão mais construir uma torre/mirante, ainda bem, por que eu também acho que ficaria totalmente desproporcional).

  2. Douglas disse:

    Olá, obrigado pela menção ao São Paulo Antiga.

    Nós so atualizamos as informações de um imóvel catalogado no site quando ele é modificado. Enquanto a obra segue, esperamos o término. Estive dentro do prédio não tem um mês, logo que virou o ano. As obras seguem a todo vapor e será um excelente espaço de ensino, arte e cultura. Uma grande iniciativa!

    Logo colocaremos fotos da obra no site. Abraços a vocês!

  3. Roseli disse:

    Dora,
    Muito legal essa sua postagem sobre esse prédio. Ela chama a atenção não só de você mas de muita gente. Eu me incluo nessa também. Trabalho aqui perto do MASP e desse prédio e sempre que passo por aqui me pergunto do porque dele ser tão abandonado. Uma vez até cheguei a falar para um amigo que se pudesse e meu dinheiro desse, compraria e restauraria ele pois acho-o lindo, imponente, estiloso. Já sabia da ligação dele com o MASP e desde que vi o prédio sendo coberto para restauro, fiquei contente. final, um destino bom para ele e para nós paulistanos que tanto curtimos cultura. Valeu querida!
    Bjs

  4. Filadelfo Cunha disse:

    Dora

    A respeito do seu relato sobre o edifício Dumont-Adans, gostaria de esclarecer que trata-se de um edifício de estilo neo-clássico e não art deco. Um do elementos da arquitetura que caracteriza o neo-clássico é o balaustre vugo “perna de moça”, bem característica do Dumont, diferentemente dos elementos que caracterizam a arquitetura art deco.
    Filadelfo

  5. Július Julio disse:

    As fotos do Dumont, sempre me passam uma melancolia de como se o lugar pudesse sentir esse abandono! É um privilégio ter um prédio com a arquitetura e humildade do Dumont na Paulista. Ele só merece um pouco mais de respeito!

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