Reflexões: Curadoria e Crítica

Terça-feira (10/05) participei do seminário Reflexões: Curadoria e Crítica, promovido pela Associação Amigos do Museu de Arte de Santa Catarina (AAMASC). Fiquei interessada pelo evento porque  achei interessante o projeto do jornalista Celso Fioravante do Mapa das Artes e então achei – meio ingenuamente – que haveria algum espaço pra discussão sobre curadoria digital, mas isso não aconteceu. Este post representa um recorte do que presenciei e aprendi no evento e não uma cobertura integral do que foi debatido por lá.

Meu interesse em ir nestas palestras foi o de entender como é discutida a questão de curadoria, tendo curiosidade em entender como funciona e é debatido o processo de curadoria tradicional, relativo às artes plásticas e visuais. Acredito que é possível entender e transpôr os conceitos que vi nos debates para outras áreas de cultura e informação: as situações são parecidas, o que muda são os ambientes e atores. Entendo que não é o ideal tratar dos assuntos em separado uma vez que eles influenciam-se mutuamente, mas prefiro tratar o que foi debatido de acordo com as características de cada um para facilitar a fluência do texto e das idéias. Pude perceber que artistas, curadores e pesquisadores da área ainda valorizam muito o ambiente onde ocorre exposições regularmente – geralmente museus de arte -  e o compreendem como um espaço necessário, vivo e de inquietação.

Crítica

Na primeira discussão, tentou-se fazer um paralelo entre a crítica, a curadoria e a exposição. A crítica de arte e a estética surgiram no pós-barroco, quando do distanciamento entre arte e religião, surgindo a partir de então novos critérios para a aceitação e o entendimento da arte. Foi também nesta mesma época que os artistas – e também o público – começou a olhar para a história da arte para desenvolver sua própria arte. Embora a crítica de arte trabalhe a partir dos paradigmas da história da arte, os debatedores fazem a diferenciação entre a crítica (que é necessariamente atual e do presente) e a história da arte (que é relativa a uma época ou período do passado). Tanto os críticos quanto os historiadores  promovem a representação do que está a ser analisado e criam valor a partir disso, na materialização de documentos de época – antigamente folhetinescos, depois e ainda catálogos, hoje blogs e sites especializados.

Definir a crítica é um desafio: embora tenha a qualidade de “transitoriedade” (de acordo com Lisbeth, que também recomendou a leitura de Patterns of Intention de Michael Baxandall), ainda assim pode ser considerada um comentário com qualidade descritiva que objetiva o ‘fazer conhecer’. Entre os questionamentos estão “qual é a função da crítica” e “para quê/quem ela serve?”. A crítica do final do século XIX ou o texto crítico assim como o conhecemos, ainda segue determinados padrões como descrever, avaliar, interpretar e expressar, não necessariamente nessa mesma ordem. Querendo ou não, esta mesma crítica, principalmente se advinda da imprensa tradicional (ou imprensa oficial, legítima, confiável entre vários outros adjetivos questionáveis)  muitas vezes é o que influencia na tomada de decisão de alguns artistas e curadores, influenciando também diretamente em suas obras, organização de exposições e até mesmo em processos criativos.

Curadoria

Vários debatedores mencionaram a etimologia da palavra “curadoria”, que vem do latim, curare, que significa cuidar, zelar,  tratar. No entanto Celso Fioravante compreende também a interpretação da origem da palavra a partir do tupi-guarani, onde curare significa um veneno de ação paralisante, com efeito letárgico. Também acredito que uma boa curadoria deveria surtir este mesmo efeito nas pessoas que dela usufruem. O jornalista também acredita que, muitas vezes, o termo “organização” pode ser mais adequado, entendendo a curadoria como um processo contínuo, que se realiza sempre a posteriori.

Lisbeth nos diz que a curadoria tem suas origens no colecionismo, que remonta ao século XVII, ao renascimento e até mesmo ao helenismo, perdurando até os dias de hoje, uma vez em que todos nos tornamos colecionadores, em maior ou menor nível. A curadoria era ocupação de grandes connoisseurs, que exibiam para um determinado público suas coleções que poderiam ser compostas de objetos arqueológicos, pinturas e esculturas. A pintura de J. Bruegel e P.P. Rubens, a “Alegoria da visão” de 1617 ilustra o colecionismo e me fez lembrar também do livro de Umberto Eco, “A Vertigem das Listas” de 2009, que aborda o colecionismo expresso em obras de arte ocidentais através da quantificação de ‘listas’, inventários, coleções expressas nas obras em figuras de santos, soldados, criaturas mitológicas, plantas medicinais e tesouros.

A Alegoria da Visão, por J. Bruegel e P.P. Rubens, 1617. Madrid, Museo Nacional del Prado

Entre curadores notórios, foram citados Pierre Restany e Harold Gilman (novos realistas), que também foram críticos de arte. No Brasil foram citados Sérgio Milliet e Lourival Gomes Machado.

Sandra Ramalho abordou a questão da identidade dos atores envolvidos a partir de posicionamento profissional, onde cada vez mais existe uma concepção integradora em contrapartida a uma mais individualista. Quando observamos o fenômeno do artista como curador e muitas vezes também como crítico, as divisões entre os papéis estabelecidos deixam de existir. Foi também discutido que atualmente o papel do curador muitas vezes se confunde com o papel de crítico, uma vez que os artistas muitas vezes procuram o curador para obter “legitimação” e aceitação de suas obras pelo público e pelo circuito. Antigamente procuravam-se os críticos, atualmente procuram-se curadores ou organizadores de eventos que promoverão visibilidade ao artista. Ainda, os debatedores compreendem que o curador tenha um papel social especializado e que o local dos museus  de arte tenha servido como ambiente para a institucionalização das coleções exibidas.

Além da sistematização de uma apresentação, para futura exposição, o curador tem a função de construir uma agenda do momento que lhes é atual, convergindo para a circulação das obras de arte selecionadas. Para Fioravante, o curador ideal tem perfil de pesquisador e suas características assemelham-se também ao papel de mediador entre as obras expostas e o público, uma vez que sua produção deve gerar reflexão e opiniões. Para Josué Mattos, a cena curatorial só surge quando a cena artística de determinado lugar já está desenvolvida, nunca a precede. O pesquisador acredita que atualmente existe uma certa banalização da curadoria, que deveria surgir para suprir determinados contextos e lacunas da produção artística de um determinado nicho artístico, promovendo melhorias  não em um sentido mais qualitativo.

A exposição

A exposição é a situação de comunicação entre as obras e o público e sempre foi um espaço de uso social, um espaço de saber e fruição, como era o teatro na antiguidade, um lugar de convivência, para se “fazer ver”. Entre os produtos da exposição (além da própria exposição) estão o que Lisbeth chama de “arte documental” que, para as exposições são os catálogos criados para exposições específicas (comuns na Europa) e o material intelectual de crítica (clipping) que antigamente era impresso nos jornais e hoje encontra-se na Internet, em vários formatos (blogs, twitter, podcasts, etc). As exposições revelam também a dimensão crítica da curadoria, quando propõem exposições temáticas para os artistas participantes, mostrando assim um perfil ensaístico e experimental. Podemos citar a obra A Fonte (1917) de M. Duchamp que causou polêmica ao ser submetida para apreciação da curadoria de uma exposição.

Lisbeth fala sobre a importância da arquitetura e do próprio prédio do museu e de como “a arte se ritualiza através deste templo,” que pode ser considerado um lugar específico e apropriado para uma exposição, uma vez que deve deter um modelo de apresentação que envolve o ambiente, a disposição das obras, sua identificação,  iluminação, localização, registro e critérios de acessibilidade. Já faz algum tempo que li uma opinião diferente no livro de “Art as an Experience” do John Dewey, onde o autor dizia que as artes de modo geral (teatro, música, pintura e arquitetura) nunca tiveram nenhuma conexão em particular com teatros, galerias, nem museus, mas que eram simplesmente parte significativa e intrínseca da comunidade na qual estavam inseridos. Acho que compartilho a opinião de que o templo na verdade é a própria natureza, e que podem existir propostas alternativas de ambientes de exposições sem que com isso a qualidade do que é oferecido necessariamente se comprometa.

Perguntas - Público

Em algum momento foi colocada a necessidade de um público que fosse “minimamente versado em arte” para que pudesse participar de uma exposição. Concordo, mas com ressalvas. Acredito que realmente, não é necessário ser um artista para gostar e compreender sobre determinado tipo de arte. Mas Josué Mattos tem um pensamento diferente. Ele acredita que uma pessoa que desconsidere premissas básicas de história da arte, da ‘linguagem’ da arte – que muitas vezes já pertencem até mesmo a obras datadas – tem muito a perder caso visite uma exposição. Não que um leigo não esteja ‘oficialmente autorizado’ a emitir opinião sobre o que desconhece, mas é fato que se a pessoa não tiver uma noção mínima, isso certamente enfraquecerá sua opinião e deixará seu discurso medíocre. E é justamente este discurso que “revela o que está invisível, o oculto atrás do aparente”.

Ele até citou um exemplo de uma frase muito comum que pessoas dizem quando se deparam com uma obra que as confronta: “mas isso aí até o meu filho faz” onde ele prontamente respondeu “sinto muito, mas o senhor está mediocrizando o potencial artístico de seu filho”. Mattos defende que é preciso conhecer minimamente o que ele chama de ‘código’, para assim poder estabelecer valores (positivos ou negativos) quando da contemplação e comunicação sobre o que é sentido quando somos confrontados com arte. A tendência é que a limitação de referências limita igualmente o entendimento, o discurso e principalmente a comunicação. Quanto mais referências a pessoa possuir, mais disponível e receptiva ela estará para compartilhar. Nem toda obra artística tem o propósito de apenas entreter ou embelezar o mundo, mas também tem função de fazer pensar, questionar.

A questão sobre as Redes Sociais e o papel da Internet em relação a curadoria e exposições também foi debatido, mas sem muita profundidade. Mattos entende que podem existir ferramentas positivas para divulgação, engajamento de público e para que ideias transitem entre artistas, mas a Internet não pode ser considerado o único meio. Lisbeth também entende que nas artes visuais existe um certo “imediatismo” onde as pessoas precisam ser confrontadas diretamente pelas vias sensíveis e afetivas, acreditando que o processo de experiência estética não se completa, caso seja feito  através de um dispositivo ou online. A professora também defende o intercâmbio humanista que possa existir em uma exposição, enquanto confraternização. Concordo com essa afirmação, mas também não consigo deixar de reconhecer que graças ao Google Art Project eu posso ter uma experiência – mesmo que limitada – com várias obras artísticas de alta qualidade, que estão espalhadas pelo mundo em 17 museus diferentes – isso tendo em vista que eu não tenho dinheiro pra ficar viajando para o exterior com frequencia.

Me parece que os palestrantes e debatedores num consenso compreendem o uso da Internet mais como ferramenta de comunicação com o público e outros artistas e divulgação de eventos do que como ambiente para exposições e curadoria propriamente dito, por considerarem o espaço muito limitante. Também confesso que desconheço – mas talvez por que nunca tenha pesquisado  sobre isso mais profundamente – sobre projetos artísticos que sejam voltados para a plataforma de Internet. Acredito que a curadoria artística (recitais, mostras, exposições, etc.) e de conteúdo  (músicas, fotografias, textos) devam ter semelhanças e diferenças entre suas práticas, igualando-se apenas no método:  seleção e agregação de valor ao que está sendo exposto ou exibido ao público.

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3 respostas para Reflexões: Curadoria e Crítica

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